Thursday, August 03, 2006

“Vamos pedir que se limpem estas eleições”

Para uma platéia de 100 mil pessoas, o candidato à presidência escancara denúncias de fraude eleitoral no México.

POR JULIANA GOMES, DÉBORA PIRES, SILVANA MURAHARA E THIAGO PRADO NERIS

Eles vestem a cor amarela do Partido da Revolução Democrática (PRD), e munidos de cartazes, faixas e bandeiras, centenas de milhares de eleitores marcham por ruas mexicanas para cobrar a verdade. Em plena praça Zócalo, a principal da Cidade do México, um acampamento está formado para manifestar apoio ao candidato presidencial, Andrés Manuel López Obrador derrotado nas urnas dia 2 de julho. O esquerdista alega irregularidades na apuração, que elegeu presidente Felipe Calderón por uma diferença de 0,57 por cento do total de votos.

As manifestaçõers de apoio a Obrador se concentram na capital mexicana, onde ele realiza comícios e discursa sobre as mais de 900 páginas em que estão possíveis provas de fraudes ocorridas na eleição presidencial do dia 2 de julho. "Não vamos apelar para a violência. Nem a rendição, nem a violência", disse López Obrador, ao caminhar entre as barracas onde muitos manifestantes passam a noite. Já o bispo Carlos Aguiar Retes, da Conferência do Episcopado Mexicano (CEM), acusa o peerredista de impedir o direito de livre trânsito na metrópole de 20 milhões de habitantes, de Zócalo até Periférico, por toda a Avenida da Reforma. O bispo de Texoco aponta a coligação de Obrador, "Pelo Bem de Todos", de "ultrapassar seu compromisso público de não afetar terceiros e de querer resolver, na rua, o que deve ser solucionado conforme a lei, no Tribunal Eleitoral do Poder Judiciário da Federação".

Apesar não estar nas leis eleitorais mexicanas, o candidato derrotado, López Obrador, pediu a possibilidade de recontagem manual dos votos ao Tribunal Eleitoral do México. No último sabádo, em coletiva para a imprensa internacional, Obrador afirmou que sua equipe tem como provar as acusações de fraude e manipulações de voto. O partido do candidato (PRD) alega que houve irregularidades em mais de 30.000 colégios eleitorais. O Instituto Federal Eleitoral respondeu às acusações esquerdistas ressaltando que o sistema de contagem dos votos é seguro e inviolável. Segundo dirigentes do Partido da Revolução Demócratica de Obrador, o atual presidente mexicano, Vicente Fox, também teve participação nas possíveis fraudes eleitorais. O Tribunal Eleitoral deve divulgar a decisão se vai ou não recontar os votos até o dia 6 de setembro.

No dia 6 de julho, desse ano, o candidato governista Felipe Calderón venceu a eleição pela Presidência do México. Com uma vantagem de 0,57% dos votos, Calderón, do Partido de Ação Nacional (PAN), obteve 35,88% dos 41 milhões totais de votos, contra os 35,31% do esquerdista Andrés Manuel Lópes Obrador, do Partido da Revolução Democrática (PRD). A diferença de pouco mais de 220 mil votos entre os candidatos, segundo a contagem oficial realizada pelo Instituto Federal Eleitoral (IFE), dispertou uma série de dúvidas a respeito da transparência do processo eleitoral que passaram a circular pelo país desde a divulgação do resultado oficial. Roberto Madrazo, cujo Partido Revolucionário Institucional (PRI) governou o México por 71 anos até a vitória do presidente Vicente Fox (PAN), em 2000, conquistou 22,27% dos votos.

Histórico das fraudes eleitorais mexicanas

No dia 2 de Julho de 1988, o líder do Partido Revolucionário Democrático -PRD Cuauhtémoc Cárdenas , perdeu a presidência por causa de gigantesca fraude eleitoral em beneficio do ex- presidente Carlos Salina.
Uma vez encerradas as mesas de votação, as pesquisas de boca de urna indicavam a vitória de Cárdenas. Mas um suposto problema no sistema eletrônico parou a contagem dos votos. Quando recomeçou a contagem, Salinas saiu na dianteira. O PRD pediu a recontagem, mas um incêndio "acidental" no sótão do Congresso, onde se guardavam os votos, queimou. Salinas foi à presidência. Em 1994, López Obrador foi vítima direta da fraude nas eleições para governador em Tabasco, seu estado natal. Se recusou a aceitar o resultado e ganhou proeminência nacional, liderando protestos em massa na Cidade do México.


Esta matéria foi apurada no Scrapbook e escrita colaborativamente no Writely pelos alunos do minicurso "Técnicas Avançadas de Jornalismo Online".

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